O ESTRANGEIRO ATRAVÉS DA POESIA DE SCARLETH CUESTA (2024)
Palavras-chave:
Scarleth Cuesta; não-lugar; exílio; poesia latino-americana; identidade cultural.Resumo
O presente artigo propõe uma leitura crítica do poema Nací multicultural, da escritora venezuelana Scarleth Cuesta, publicado em 2024, a partir da articulação entre o conceito de não-lugar, a experiência do estrangeiro e os processos contemporâneos de deslocamento identitário na América Latina. Considerando a poesia como forma de elaboração estética da memória histórica e da subjetividade socialmente situada, o estudo investiga de que modo o eu lírico constrói uma identidade marcada pela fronteira, pela hibridez cultural e pela sensação de não pertencimento. A análise parte da hipótese de que o exílio representado no poema não se limita à dimensão geográfica, mas se manifesta como condição existencial, simbólica e política, atravessada por memórias de violência, apagamento e resistência. Nesse percurso, examinam-se os principais procedimentos temáticos, formais e estilísticos mobilizados por Cuesta, especialmente as imagens corporais, as metáforas territoriais, o verso livre, os campos semânticos da terra, do corpo e da luta, bem como o tom progressivamente manifesto da composição. O artigo demonstra que o corpo poético funciona como arquivo de uma memória coletiva latino-americana, enquanto a escrita se converte em gesto de insurreição diante das desigualdades históricas, da precariedade da modernidade contemporânea e da invisibilização de sujeitos fronteiriços, migrantes e culturalmente deslocados. Conclui-se que Nací multicultural transforma o não-lugar em espaço de enunciação crítica, afirmando a interculturalidade como possibilidade de reconstrução identitária, convivência digna e resistência simbólica.
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